Parece que estamos a 40, 50 anos atrás, mas não estamos.

parece

 

Parece que estamos a 40, 50 anos atrás, mas não estamos.

um brasil golpeado – cinzas e muita fumaça com ardência chiando -, uma norte América gestando guerras sem fim e endossando um porco capitalista como presidente, morre-se no deserto, morre-se na cidade, morre-se no oceano, e se não morremos vamos a viver quarentenas obrigatórias.

a escola des-universal vez mais, matérias de humano pensamento banidas do ensino dos adolescentes, a ideologia palavrão e a política da vida comum perseguida mesquinhamente, a universidade em fossos a sugar suas bases e em eminente privatização,

o doutor manda, o consultório é particular e posto de saúde é emergência e olhe lá, teu corpo tua responsabilidade, precise menos, por favor, porque saúde custa e se não tens não tens. Particular, público, não importa, um fígado por centenas de reais…

crise e desenvolvimento marcados, medidos e sacramentados somente pelo giro monetário, nem um centavo a mais. A exploração refazendo velhos e novos escravos, subempregos – ordem do dia, preconceitos acirrados e chacina não aparece mais na televisão, não precisa, nunca precisou.

a visibilidade marginal parece acirrar ainda mais a perseguição, trans correm ainda pelas ruas, pretos são presos a perder de vista, caipiras não devem escolher, pobre não merece luxo de inteligência, mulher é pra deitar, bicha aberração e sapatão nem existe. Nosso beijo ofende ainda, mesmo que nosso poder e corpos ainda gritem: SIM, vai ser asSIM!

a intolerância tem sido a prova dos nove, lutar é palavra suja, mas vibra atualmente como doença infecciosa, suor e sangue. Banqueiros engordando, polícia espremida a espremer a espremer a espremer os de baixo seja ele em que direção for, cumpra-se…

droga que se alastra em veneno e não prazer, AIDS que infecta jovens, aposentados sem perspectiva, desastre ambiental varrendo cidade saúde gente água e deixando línguas de lama cancerígena. Cadáveres de toda espécie e nenhuma vela sequer.

discursos de cataclisma, caça aos culpados, a dizimação de etnias quase inteiras, o fechamento das fronteiras, a vida a se consumir seja pelo trabalho seja em modelos práticos proto-simulacro-hedonistas…

o macho mais bruto, o feminino mais acuado, o infantil consumista e um individualismo a sair pelo ladrão…

 

Parece que estamos a 40, 50 anos atrás, mas não estamos.

o amor livre e os casamentos de branco,

a cultura negra ainda a ser folclore,

índio só pra carnaval ou livro de estória,

No slogan ainda re-marca “ordem e progresso”,

a América latina em reações à sua veia esquerdista, naquele velho combate alérgico de colonizar à força em pernas abertas, curar enfim essas malditas terras que teimam em cultivar combate,

as diásporas, a falta de tempo e o medo da rua,

o jogo de cozinha e a tecnologia, o pé no chão do matuto.

palmatória química, a doença e seu rio de dinheiro a ser macrodrenado,

a corrupção, os pauzinhos mexidos, homéricas emboscadas e pífias conclusões, só não se explode bomba no colo de general porque não é mais preciso,

a palavra de ordem voltando a endurecer e a ser combatida, as  hipocrisias a cheirar a colônias tipo exportação evaporando pelo ralos da cidade,

o arroto gordo da Metrópole que ainda habita em nós a dizer da malfazeja sina de ser mestiço, burro, pobre, e que deve-se embranquecer, alisar, alpinistar sejam classes sociais sejam transportes públicos para seu individual posto, a jogar fora marca de pele histórica, a ter calafrios de ansiedade para viver sempre de um certo futuro,

e querer neve ao invés de sertão.

 

Parece que estamos a 40, 50 anos atrás, mas não estamos.

filmes de super-heróis, meninos de rua, conjuntos habitacionais e condomínios de luxo, poluição na baía e água mineral saborizada,

falta d’água e hidroelétrica.

amazônia fantasmagórica, sem terras moídos e máquinas de agro-negócio a mastigar terra, gente, planta, dizendo-se TUDO. Cromossomos de produtividade inteiros no horário nobre.

não escreva poema, só se for de beleza européia, ou de desmaio íntimo melodramático. Falar é preciso, ter carne não é preciso.

 

Parece que estamos a 40, 50 anos atrás, mas não estamos.

Enquanto alguém gira uma taça de vinho a blasfemar pela falta de empregadas domésticas devido ao Bolsa Família, essa mulher se levanta.

Enquanto a espuma virulenta profere que os meninos que namoram deviam ser pendurados pelos testículos e ensinados à pauladas, esses dois se dão as mãos.

Enquanto o eloqüente cachorrinho de oratória fascista conclama Machado de Assis como último grande escritor brasileiro, a legião nos invade – os pelo menos 200 insanos da literatura soerguem – e escrevemos.

Enquanto montam-se governos a congelar saúde e educação, baseado em homens brancos e burgueses, os seios estão à mostra é nutrição de resistência.

Enquanto as câmeras se montam na sala de aula a procurar doutrinadores, destilamos a dor de estômago em questões infernais como: suportas ter esse sangue em suas mãos?

Enquanto o discurso intolerante oferece miraculoso curto conforto a eliminar o ERRO do mundo, errantes ainda brincam e pixam toda a cidade.

Enquanto o dinheiro some, o coração bate.

Enquanto evacuar e dispersar são forçados com bombas na cabeça de mulheres, idosos, homens e crianças, a gente ocupa.

Enquanto a ordem progride, um abraço deixa a lágrima menos amarga.

Enquanto os modelos de participação são cooptados, encontramos a vida a explodir por todos os lados feito praga.

 

Parece que estamos a 40, 50 anos atrás, mas não estamos.

Cachorro louco, matilha de amor.

 

Estamos uivando.

Parece, mas estamos mais.

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Sobre gabrielalvarenga

O pássaro voa por que queima entre o chão Ver todos os artigos de gabrielalvarenga

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