Conta – um grito coletivo, o intolerável

 

Conta é um texto coletivo. Pleno de imagens vividas por mim e por diversos companheiros militantes de diversas modalidades, que lutam pela vida, que trabalham diretamente com violência, que vão a acotovelar-se por espaço em um cenário cada vez mais rarefeito e truculento.Queria eu que as imagens fossem alegorias, invenções de pesadelo ou mesmo inflação em paranoia. Não. A maioria do que está escrito é cruelmente real, real.

Sou psicólogo de formação, trabalhei anos em Saúde Mental, trabalhei em comunidades, estive dentro da Universidade Federal muito tempo… E mesmo que a experiência de ver a morte nos olhos, de sentir o extermínio minar das paredes das instituições, de soluçar de medo e desespero que muitas vezes vivenciamos juntos, daí que vem alguma força, alguma.

Esse texto é coletivo. É vômito e drenagem de pus. É feio, mau cheiroso e dolorido,como tem andado esses tempos. Mas também belo em braços fortes de tantos. Insistente como a vida multifacetada. Coletivo porque não me pertence, é  mais retrato sudário, chorado, sangrado, de tudo que teimamos em não ver. É pra diluir a dor e o desamparo, mesmo que seja de ódio o grito por vezes. É pesado pra mim, pra todos nós, e se não revesamos vão todos de joelhos ao chão em exaustão ao mesmo tempo.

Os assassinatos continuam, mas o exemplo assombra longe e frio. Parece a cabeça de lampião sobre a mesa aqueles tantos tiros em uma rua do Estácio. Parece um tronco de chibata a quantidade de sangue. Parece os caixões abertos da IML em nov chacina.

Parece, mas não é. É uma mulher  negra favelada lésbica militante dos direitos humanos vereadora assassinada como se nada fosse… Em 2018. 518 anos disso não reduzem o impacto, aumentam o pavor.

É coletivo porque preciso de muitos, porque não sou só, porque são muitas vozes em conclame, aí onde viro gente um instante. Não quero autoria, quero euforia. Todos.

Coletivo, dispersivo, ácido e trágico, como tem muitas vezes sido esses tempos.

Me amedronta, por isso preciso dividir o peso, precisamos. Não imaginei que tudo seria tão imiscuído e concreto, mas tem sido e cada vez mais surdo e certeiro o tiro. Me assombra, mas o abraço acolhe, ninguém consegue sozinho.

 

Coletivo, de todos, aos ventos… minhas mãos estendidas, sangue. Mas as mãos ainda estendidas.

 

“Aos urros, aos murros,

Há de brotar.”

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Fulguro – Áudio conto

Conto “Fulguro”, publicado no livro “Supernova – contos”, publicado sob o selo Carreira Literária, Editora Oito e Meio.

 

Novo projeto de áudio contos para proliferar a ação e os efeitos do texto, que sejam contágio.


Van Gogh – o suicidável da sociedade

 

Qual um dos mais intensos e catastróficos artistas encarnados que já me aproximei, Van Gogh mostrava-se, em toda a minha vivência, como um perigo. Perigo em eu ser pequeno demais para tocar suas cores; perigo de, por hipnose, ser queimado em seus sóis âmbar e não ser capaz de distinguir mais o que me fazia espectador em segurança; perigo de virar volta de luz no céu negro anil dele; perigo de ver demais… Daí certa precaução para com ele, para com sua obra. Não por mim, por buscar resguardar o que em mim ainda não estava deveras (e sei da ilusão parca dessa afirmação) em prumo para estar com ele, mas por ter sua obra numa tal vivacidade que me seria um movimento de arrogância falar dele, falar de sua obra… Não seria respeito, ele me pede gravidade, me ameaça, me mata de tanta vida…

Tanta vida. Mas a obra – mesmo sendo com seu autor, parte dele e já também uma transformação destacada do caminho terreno do corpo humano que a produz[1] – segue em abertura, tão vibrante que é impossível saber onde vai a estar. Mas os homens o sabem; tudo que tem brilho demais, ou mesmo trevas espessas, deve ser domado, digerido, enclausurado em vidro a prova de balas, para que seu efeito seja aplacado e para que, assim acuada, entre, enfim, num uso digno ou mesmo faça algum valor à sociedade. Valor. Relevância não em experiência vibrante, mas valor contido, embrulhado e muito bem retinto em seu percurso esperado e repetido em manter o mundo como está, onde possamos somente admirá-lo no que tem de belo.

Belo. Palavra singela que possibilita tanta matança. O debate sobre a estética, classicamente entendida na filosofia e na arte como setor de estudo do belo, recai muitas vezes sobre valores canonizados e avaliações de especialistas privilegiados. Pouco me importa por agora, o que busco em beleza é a potência de transformação. VanGogh não se colocava a pintar para embelezar as coisas ou mesmo traduzir o mundo em sua perfeita formosura. Era a potência inegável de se mostrar o redor em crueza que o fazia avassalador pintor, aferrado à beleza incontestável de tudo, tudo.

Tudo. É isso parece ser a “partícula de insuportável” no terreno da arte profissional. Não se pode almejar muito; não se pode esperar de iletrados, poemas; não queira da selvageria, a fascinação refinada. Mas às vezes isso espirra, algo escorrega insuspeito, e, assim, as pinturas de Van Gogh insistiram, como mancha indelével e inegavelmente visível. Ele pereceu, sua arte se firmou, mas além de fazer apanhados históricos e reflexivos do caminho artístico de Vincent van Gogh, o que ressoa mais premente é: como a arte é processada em nossos tempos, ou mais, o que se faz de tudo isso?

Isso. Temia muito em escrever sobre Van Gogh. Não me achava capaz de traduzir em palavras algo que seria mesquinho frente à experiência de suas pinturas. Não poderia fazê-lo medíocre, pois minhas falas seriam muito pouco. Mas parece ser exatamente o oposto que temos visto acontecer…

Acontece. Após certa espera ansiosa, pois os frames que tinha acesso e a pompa que adornava o trabalho em tons muito febris e ao mesmo tempo cálidos como o famigerado pintor, fui assistir o filme “Com amor, Van Gogh”, animação completamente pintada a óleo no estilo expressionista de Vincent e baseado em diversos quadros e temas retratados por ele em suas pinturas. Aí acaba a força desse filme. O assombro das pinturas em movimento, as cores e a ressuscitação das imagens fixas tão conhecidas, é completamente sepultado por uma escolha. O enredo – o script se podemos falar em termos cinematográficos, o argumento se falamos de crônicas ou literatura – é uma escolha. Uma investigação do suposto suicídio do pintor, em um curto melodrama que transforma o jovem indócil Armand em um perseguidor de certa verdade atroz que justifique os atos do pintor lunático, mas que, numa parca virada de belo anti-herói, vai a “compreender” suas circunstâncias, chegando mesmo a defender que o homem Van Gogh era um gênio que deveria de toda maneira ter sido assassinado em círculos de inveja, intolerância e desastres familiares-econômicos. Isso é uma escolha. Transformar a possibilidade de adentrar as cores de Van Gogh para contar o homem frágil, mas genial, chega a ser patético. Fragiliza-se o que já é carne podre. Pode-se fazer isso com ele, já o foi feito certa vez. A incompreensão é uma cortina cristã violácea e culposa, leve demais para cobrir um fardo ensangüentado e esquartejado minutos antes.

Antes. O corpo já estava seco, sua própria ligação com o mundo já o consumia. Mas opta-se, novamente, pela pedrada. Em nenhuma altura entra-se em contato com a revolução que um homem louco causa ao deflorar o mundo em cores e urgência de beleza apocalíptica; melhor pensar nele como um viciado fraco torpe, mas de coração cálido e que se resigna em seu assassinato ao salvar – como um cristo caridoso e de cabelos ruivos – seus opressores. Muito mais simples pensar que a falência deve-se ao fato de que ele não se contentava em ter um humor difícil de lidar e que a família consistia-se de homens fracos, além do mau agouro de nascer sob o signo do irmão morto e – obviamente – enclausurado na castração familiar de nunca ter amor da mamãe ou aprovação do sisudo papai. Melhor transformar tudo numa noveleta muito mais instigante, que faz flertarem com maestria Agatha Chrite e Dr. Freud, escalando personagens em sua mínima superfície, mais rasos que as pinceladas originais do pintor holandês.

Seus amores sempre foram a reprodução de seu conflito familiar mau resolvido. Seus ataques de loucura geraram o afastamento e, coitado desse cão morto de fome, foi sempre chacota. Um homem à frente de seu tempo, que caiu nas garras gananciosas de um psiquiatra tão retrógrado e invejoso que fez seu nome da doença que aterrorizava o tal pintor obsessivo. Feito uma linha torta de tempo inusitada, Van Gogh retrata certo Prometeu acorrentado a ser consumido em perpétua regeneração para o fastio de deuses frente a petulância de enxergar demais. Ou mesmo da Geni, a quem todos devem rogar piedade em sua preciosa entrega, mas que ao descer ao solo deve novamente ser escorraçada e embostada, pois tais seres estranhos foram feitos pra apanhar, são bons de cuspir.

Cuspir. Um filme não é um texto. O orçamento de uma produção cinematográfica como a de “Com amor, Van Gogh” deixaria vários projetos artísticos para trás. Mais de cem anos depois e ainda é intragável o que Van Gogh nos faz tocar. Após a quase completa plastificação, reprodução, dissecação, venda e revenda, suas pinturas parecem ainda uma farpa nos olhos. Mesmo que este maníaco tenha merecido morrer vendendo um só quadro e que agora, nós, modernosos, que o compreendemos e, enfim, nomeamos as contas mais gordas de um certo banco com seu brilhante nome, talvez esteja ainda a cheirar a falta de banho e amoníaco das tanta tinta a óleo. Não se trata de perder uma “chance de ouro”, ter o inimaginável em termo de qualidade, impacto, experiência visual e completa primorosidade que as imagens do filme portam, com uma narrativa que foi por demais diluída para que as massas que acendem às grandes salas de projeção pudessem ter um acesso, alguma ligação com a história do pintor ou mesmo compreender o magnífico luxuoso de tais obras primas. Não. Isso é um ato,uma produção, uma afirmação. Pois se isso é cogitado, estamos nós deitados no chão junto a Van Gogh, a esperar as pauladas em nossos corpos vira-latas burros e selvagens. É uma escolha não entrar tão em contato com o que Van Gogh em sua radical afirmação do mundo em beleza deliberada. Uma escolha ter uma vida recontada de certa forma, onde não cabem as pinturas, onde não cabe o irascível. É melhor imaginar sua doença dos nervos que suportar que não toleramos olhar o sol por tempo demais. Mais seguro ver as pinturas por detrás do véu psicanalítico e psiquiátrico, com suas confortáveis bordas, repetições, padrões, perversões de zoológico e claras demonstrações exemplares, do que olhar o pintor de frente e ver a fúria que a vida possui. Muito mais interessante, em termos de entretenimento, assistir à caça da bela verdade por trás de um homem injustamente incriminado, do que incomodar-se com o entorno ao pensar na morte sem propósito.

Quem é o público? Quem é Van Gogh? Ele nunca se importou, mas sua carne suicidável chega a parecer as cabeças decepadas por sobre os postes da praça central a indicar que: sim, somos misericordiosos, vejam, até lhes demos a extrema-unção! Pobre diabo, mas que teve seu fim em perdão, pois não sabia o que fazia. Ou ainda o gozo histérico de todos os peritos a quem uma figura atroz lhes dá a deliciosa possibilidade da projeção segura, como numa decalcomania, serem loucos, serem gênios, fazerem sexo, serem impetuoso, ao invés de meros pedaços de gente que repete, há décadas, certos jargões que jamais sentiram apego por fim.

Fim. Ele é um rasgo. Van Gogh não existe, se refaz em luz e morte, na beleza por todos os lados. Não quis compreensão, não se importava com isso, porque o mundo dos homens é só violento, nada mais. Ele se retira, porque não precisou estar ali em nenhum momento. Se descarta pois mora no encontro do mundo com sua cor na ponta do pincel e só. Quem suporta essa fenda? Como tomar o café de toda manhã em sua caneca dos famosos girassóis – que nunca achastes tão bem pintados assim –, que são lindos em amarelo, como que te alegram todas as manhãs, e ver que Van Gogh não os achava belos, mas sim impossivelmente vivos? Na podridão da vida. Como imaginar que a ternura de tantas flores foi pintada a base de monótonas repetições e drogas? Onde colocar o asco ao pensar esse homem que cortou a orelha quando vemos as tão lindas cores de seu quarto praticamente infantil? Onde trocar o valor do ingresso desse museu que expõe obras de um homem que transava com prostitutas? Como admirar e refletir sobre como a pintura é beatificante ao ver a solidão de Van Gogh? Como não imaginar que o amor entre irmãos é coisa tão valiosa e que vou a dar um grande abraço no meu irmão como Théo não o pode fazer com Vincent, mesmo que eu não suporte nem o meu vizinho? Espelho quebrado e ausência de reflexo. Como sair da hipnótica sedução de um psicopata tão genial e amoroso e ver que somos todos matéria orgânica em pulsação? Onde enfiar minha ignorância quando não me emociono com as cores da noite estrelada sendo que esse homem só pode ser um profeta da beleza pura descida de algum céu, como disseram amigos meus na galeria? Onde colocar minha pena se não em um coitado?

Enfie no cu, Van Gogh não está, escapou aos cacos.

Cacos. Só a rejeição pode explicar um homem que pinta tão caóticamente quanto este, não é? Só o milagre divino que nos faz brindar certo primor estonteante de graça, tão incompreendida pelos atrozes arcaicos do século XIX! Só um bom coração de perdão para justificar todos os pecados desse homem torto, coitado!

Coitado. A hipocrisia escorre, cruelmente, daquele filme… Vincent falou de amor todo o tempo, mas esse não foi um ato de amor, e sim dum avesso bem sucedido. Amor elementar o pintor clamava, e teve ironia caquética roubada de suas cartas como título… Há diversas versões de uma história, um homem não é só louco, coitado, ele sofreu muito. Que tal, ao invés de escutá-lo, a gente só faça a ligação dos pontos dessas pessoas más para descobrir e – finalmente – compreender porque ele pensa dessa maneira? Realmente agora entendo seu isolamento, suas cores inusitadas, mas aí está, sua redenção: um homem doente, traumatizado, mau compreendido, pobre, explorado, mas que de tanta compaixão vira uma obra prima do coração humano de todos nós. O que seria do ritual se o corpo não fosse novamente encenado, torturado e redimido no minuto final?

Não se escuta Vincent. Não se busca viver com ele, e sim compreender a verdade atrás dessa maldição. Insuportável ele, desde sempre, feito uma fotofobia, um grito mudo em matiz. Não quero saber o que ele pintou, foi um homem do bem ou do mal? Não quero ver as cores e sentir essas coisas sem nome, e imaginar o que é arrancar a própria orelha. Quem quer saber em que transformamos a arte, quero meu broche para ser hipster. Lindo demais esse filme, recomendo, tadinho dele, ele sofreu demais, mas lá eles explicam tudo bem direitinho, ô gente ruim a que rodeava ele… Se vivesse hoje seria rico…

Rico. A animação quase que se descola do enredo e da trilha sonora policial-sentimentalóide, chega a quase pingar de tão incrível, mas some no mesmo ralo do ato: vamos a matar Van Gogh como ele merecia desde o começo: urgente calar, sempre mais urgente, pois os contratos são milionários, os direitos autorais todos em processo bem fresquinho, e as filas estão a crescer: Venham ver o louco genial, venham a preços módicos, leve pra casa seu souvenir desse famigerado homem celestial, mas andem logo, há mais gente atrás.

Tais corpos pouco importam, os suicidamos como diria nosso irritantemente sonoro Artaud[2]… Processa, dilui, vai que dá pra vender? Mais do que respeitar e pagar tributos às obras, o que cria uma catividade da obra em um interpretacionismo atroz, devemos deixar que as obras nos matem, suicidem em nós o que se mantém fixo, escarnem o habitual e resguardado do cidadão comum,  estourem e nos empurrem dos penhascos.

Penhascos. Da tentativa desesperada de tamponar a sensibilidade brota esse nojo. Toda doçura amarga frente esse uso, essa parca parcela de optar pelo menos, pelo seguro, pelo coquete, pelo dinheiro, pelo uso alegre das heranças de gaveta… O dia passa, a luz sublime deve ser a morte mesmo, pois todos a temem, não por sua verdade final em desvelo, mas por sua crueza sobre a pele e pela explosão de nossa idiotice incontestável ao tocar o mundo.

Mundo. Persiste em deslumbre, em desbunde. Um filme, um ato, mas toda e fúria de um certo Vincent que abriu-lhes um talho na carne. Esse de onde ele inocula, no cru, todo o arroubo desse mundo. Intolerável, como raio solar e breu completo, nos fendem outra vez.

 

E nós que não estamos, no que eu me sinto inclinado

para acreditar, de modo algum tão perto de morrer, no entanto

sentimos que a coisa é maior do que nós e

de maior duração do que a nossa vida.

Não sentimos vontade de morrer, mas sentimos a realidade

que somos muito pequenos e que para ser um anel

na cadeia de artistas, pagamos um preço muito alto

na saúde, na juventude, em liberdade, de que não gostamos

no mais mínimo, não mais do que o cavalo fiacre

que arrasta um carro cheio de pessoas que vão aproveitar

a primavera. (VAN GOGH, Vincent. Cartas à Téo, tradução livre, p 208)

 

Morto, nos faz viver.

 

 

[1] Esse ensaio se refugia em Deleuze e Guattari nesse momento em seu texto Percepto, afecto, conceito em O que é a filosofia? para evitar divagações exaustivas sobre a arte, pensamento e ruptura. Daí ele salta, o ensaio, para o enfrentamento direto.

[2] Artaud clamou o suicidamento de Van Gogh na década de 40 do século XX, mas isso deve calar, um pouco mais, mais à frente… Psiquiatras, especialistas, anatomistas da vida normal temos aos montes, mas a fúria não tem descanso também, ela insiste.


Parece que estamos a 40, 50 anos atrás, mas não estamos.

parece

 

Parece que estamos a 40, 50 anos atrás, mas não estamos.

um brasil golpeado – cinzas e muita fumaça com ardência chiando -, uma norte América gestando guerras sem fim e endossando um porco capitalista como presidente, morre-se no deserto, morre-se na cidade, morre-se no oceano, e se não morremos vamos a viver quarentenas obrigatórias.

a escola des-universal vez mais, matérias de humano pensamento banidas do ensino dos adolescentes, a ideologia palavrão e a política da vida comum perseguida mesquinhamente, a universidade em fossos a sugar suas bases e em eminente privatização,

o doutor manda, o consultório é particular e posto de saúde é emergência e olhe lá, teu corpo tua responsabilidade, precise menos, por favor, porque saúde custa e se não tens não tens. Particular, público, não importa, um fígado por centenas de reais…

crise e desenvolvimento marcados, medidos e sacramentados somente pelo giro monetário, nem um centavo a mais. A exploração refazendo velhos e novos escravos, subempregos – ordem do dia, preconceitos acirrados e chacina não aparece mais na televisão, não precisa, nunca precisou.

a visibilidade marginal parece acirrar ainda mais a perseguição, trans correm ainda pelas ruas, pretos são presos a perder de vista, caipiras não devem escolher, pobre não merece luxo de inteligência, mulher é pra deitar, bicha aberração e sapatão nem existe. Nosso beijo ofende ainda, mesmo que nosso poder e corpos ainda gritem: SIM, vai ser asSIM!

a intolerância tem sido a prova dos nove, lutar é palavra suja, mas vibra atualmente como doença infecciosa, suor e sangue. Banqueiros engordando, polícia espremida a espremer a espremer a espremer os de baixo seja ele em que direção for, cumpra-se…

droga que se alastra em veneno e não prazer, AIDS que infecta jovens, aposentados sem perspectiva, desastre ambiental varrendo cidade saúde gente água e deixando línguas de lama cancerígena. Cadáveres de toda espécie e nenhuma vela sequer.

discursos de cataclisma, caça aos culpados, a dizimação de etnias quase inteiras, o fechamento das fronteiras, a vida a se consumir seja pelo trabalho seja em modelos práticos proto-simulacro-hedonistas…

o macho mais bruto, o feminino mais acuado, o infantil consumista e um individualismo a sair pelo ladrão…

 

Parece que estamos a 40, 50 anos atrás, mas não estamos.

o amor livre e os casamentos de branco,

a cultura negra ainda a ser folclore,

índio só pra carnaval ou livro de estória,

No slogan ainda re-marca “ordem e progresso”,

a América latina em reações à sua veia esquerdista, naquele velho combate alérgico de colonizar à força em pernas abertas, curar enfim essas malditas terras que teimam em cultivar combate,

as diásporas, a falta de tempo e o medo da rua,

o jogo de cozinha e a tecnologia, o pé no chão do matuto.

palmatória química, a doença e seu rio de dinheiro a ser macrodrenado,

a corrupção, os pauzinhos mexidos, homéricas emboscadas e pífias conclusões, só não se explode bomba no colo de general porque não é mais preciso,

a palavra de ordem voltando a endurecer e a ser combatida, as  hipocrisias a cheirar a colônias tipo exportação evaporando pelo ralos da cidade,

o arroto gordo da Metrópole que ainda habita em nós a dizer da malfazeja sina de ser mestiço, burro, pobre, e que deve-se embranquecer, alisar, alpinistar sejam classes sociais sejam transportes públicos para seu individual posto, a jogar fora marca de pele histórica, a ter calafrios de ansiedade para viver sempre de um certo futuro,

e querer neve ao invés de sertão.

 

Parece que estamos a 40, 50 anos atrás, mas não estamos.

filmes de super-heróis, meninos de rua, conjuntos habitacionais e condomínios de luxo, poluição na baía e água mineral saborizada,

falta d’água e hidroelétrica.

amazônia fantasmagórica, sem terras moídos e máquinas de agro-negócio a mastigar terra, gente, planta, dizendo-se TUDO. Cromossomos de produtividade inteiros no horário nobre.

não escreva poema, só se for de beleza européia, ou de desmaio íntimo melodramático. Falar é preciso, ter carne não é preciso.

 

Parece que estamos a 40, 50 anos atrás, mas não estamos.

Enquanto alguém gira uma taça de vinho a blasfemar pela falta de empregadas domésticas devido ao Bolsa Família, essa mulher se levanta.

Enquanto a espuma virulenta profere que os meninos que namoram deviam ser pendurados pelos testículos e ensinados à pauladas, esses dois se dão as mãos.

Enquanto o eloqüente cachorrinho de oratória fascista conclama Machado de Assis como último grande escritor brasileiro, a legião nos invade – os pelo menos 200 insanos da literatura soerguem – e escrevemos.

Enquanto montam-se governos a congelar saúde e educação, baseado em homens brancos e burgueses, os seios estão à mostra é nutrição de resistência.

Enquanto as câmeras se montam na sala de aula a procurar doutrinadores, destilamos a dor de estômago em questões infernais como: suportas ter esse sangue em suas mãos?

Enquanto o discurso intolerante oferece miraculoso curto conforto a eliminar o ERRO do mundo, errantes ainda brincam e pixam toda a cidade.

Enquanto o dinheiro some, o coração bate.

Enquanto evacuar e dispersar são forçados com bombas na cabeça de mulheres, idosos, homens e crianças, a gente ocupa.

Enquanto a ordem progride, um abraço deixa a lágrima menos amarga.

Enquanto os modelos de participação são cooptados, encontramos a vida a explodir por todos os lados feito praga.

 

Parece que estamos a 40, 50 anos atrás, mas não estamos.

Cachorro louco, matilha de amor.

 

Estamos uivando.

Parece, mas estamos mais.


Escrever – a que será que se destina?

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Aqui me propus a escrever. Mesmo que escrever seja algo de indomável, aqui é a escrita que tento habitar sobremaneira. Inutilidade diária frente a um produtivismo consumado, escrever é sortilégio e riso, pois escapa. Lança, percorre, fura, turva, estraçalha – e o que menos importa é o alvo.

Claro que se tem técnica, certos calos nos dedos e insistência para repetir palavras intermináveis, mesmo que muitas vezes fiquem a rolar na boca feito bagaço de cana ou fiapos de manga entre os dentes.

Não se escreve bem. A bela escrita, essa do talento quase orácular, essa que todos buscam acessar em meditações e receitas gourmet, paira sublime e intocada, mas ninguém sabe quem diz qual é a palavra polida e a bruta. Sabe-se sim, mas dizer em voz alta quem escolhe é tiro no pé, ou melhor, nas mãos, olhos e ouvidos.

Escrever bem, isso é para ostentador pequeno, para intelectual acuado em mísera fortaleza de papel. Eles sim escrevem bem, fazem críticas primorosas, conhecem o que tem de se saber para poder ler qualquer texto além do texto, e veem ainda mais além do que qualquer cidadão ludibriável pela arte de letras. Escrivãos arvorados a escritores, pois essa dita arte literária dominada por estes mesmo intelectuais é muito mais repetida pela função de escriba prestidigitador que por inspiração. Os sublimes donos dos sentimentos depurados, que enxergam nesse humano animal certo toque divinal dum verso perfeito. Esses Olavos Bilacs que enchem de traços rebuscados essa covardia que é ser intelectual, escolhem.

Não quero isso. Eu, desde que aquele filho do carbono e do amoníaco me deu sina, que perdi muitas vezes a voz frente ao mercado editorial, insisto.  Mas faço petulância feito carrapato que faz comichão leve só a pedir ajuda pra furar mais fundo a pele e engordar enquanto caminhamos no couro uns dos outros. Não quero ouro algum das palavras, pois elas são meu sangue, meu respiro.

Escrevo como quem devassa a vida, num desejo tão grande de aproximação que fico a babar com um olhar da rua e espumo de tédio ouvindo os grandessíssimos eloquentes de nossos tempos – esses com muito mais updates e argumentações capciosas do que você mero medíocre do contemporâneo. Apenas curta, por favor. De post em post perco completamente a vontade de ler, mesmo que esse seja um dos meus maiores prazeres. Mas leitura, arte e vida pra mim é a mesma coisa, e tudo que tem fome e luxuria me atrai muito mais que referências bibliográficas.

A vida mora em tudo, mas nas frases é artesanato fazer brotar um pulso bom, um rompante digno de suspiro e certo veneno anti-monotonia que dure gerações. Não recheio papéis da mesma forma que não amolo as facas cegas da violência. Minha bruteza é de outro gume, é de sorriso, de carne, de gente boiada viva, de ave de céu amplo, de luta corporal seja no grito ou no afago.

Em tempos de mesquinharia e hipocrisia pra que escrever? Que artista é esse? Escrever é pra acordar afeto e nutrir. Rosas pequeninas. O resto é sanha de viver, de fazer gente e mundo feliz, no correr a vida em sua magia potente, e só.

Apensa a matéria viva era tão fina.


Re-voar

Não sei como tirar isso da alma, do sistema.

Diria que sinto um vazio, mas não se trata disso. Um aperto de desprendimento, algo mais próximo de uma taquicardia sem propósito. A indeterminação dos dias abarco com afazeres, encontros furtivos; ocupações mínimas diante do assunto do coração, mas plenas de realização e contato real. É algo a se aprender. Esse desapego. Deixar os atos mandarem no coração como disseram tantos caminhos. Resigno, sinto que estou sim conseguindo trilhar algum caminho de verdade, que as cores do dia quente se fazem, sei disso, abraço isso, aceito sim. Mas subsiste ainda fino rio frio, ponta de gélida brisa que escapa. 

Vicio cultivado, certo apaixonamento que ainda nutro pelas coisas, caminho que ainda se mostra certo mesmo que tenha de ser adormecido por agora. Um céu escuro e calmo com aquela lua plena e minguante praticamente estática.

Estrelas aos milhões a real mancha láctea na noite incólume a me dizer, sim, é tempo de migrar.


Fome

porque não pude encontrar comida que me agradasse.

Parcerias que brotam, é disso que precisamos. Aqui mais uma que se fortalece, texto meu compondo o projeto “11 olhares sobre a obra de Franz Kafka 90 anos após sua morte”, convite feito pelo camarada Luciano Bedin. Muito feliz de estar junto a esses nesse olhar para uma obra ainda pulsante, perturbadora e extremamente atual como a de Kafka. Esse texto foi produzido inspirado pelo conto “O artista da fome” e segue cheio de energia. Muita alegria e pulso vital!

Ao tocar Um artista da fome, de Franz Kafka

Saciedade? A aproximação do corpo do jejuador parece inusitada. Esse que se senta e parece mais se deleitar do que fenecer de privação. Energia apesar. Saltos damos entre sua magreza em costelas expostas e as ruas gordas que o rodeiam, e,incólumes, ficamos próximo demais. Costurando o que se passa pelos cantos do mundo e junto a esse que se nega para permanecer tateando zonas antes dormentes. Não se trata de recusa, e sim um convite à transformação.

Propósitos muitos, mas fracos como a pele tenaz desse humano.Na companhia do relógio, que frente à avidez do jejum se desfaz, ele permanece. O mundo derrete dentro dele, estremecemos junto a ele. Da fascinação receosa das crianças aos rostos de sorriso amarelo das belas moças que o erguem ao final dos 40 dias sem alimento, provamos esse incômodo. A dúvida nos mantém em sua companhia. Ilusão. Fácil. A ótima companhia de mutação.Algo impele e, mesmo indócil, perdura plácido. A carne treme, os passos se fazem audíveis, as pessoas se empurram desajeitadas pelo curto caminho coletivo, as feras rugem e, mesmo sentindo tudo como uma mandíbula deslocada, algo fino persiste.Uma fome profunda e oca.

Estar perto de tudo –rodando entre os transeuntes, entrando em diversos corredores, clarões e escuridão silente –,é a armadilha.Comungando algo além, algo a escorrer pelo invisível que nos espreita na concretude das cenas. Ele, que insiste em se entregar e arruína o passeio jocoso ao circo. Como os cabelos que crescem, perdemos a forma ao virar palha, jaula, gole d’água.Não há próprio despertar, talvez certo delírio de fraqueza nos penetre, um gosto de nada sobre a língua…o gosto de gente que não estamos acostumados. Novelos de informação,a precisão das negociatas, o teatro curto na calçada e nossos olhos pregados no desaparecimento.

Artista de espetáculo caduco. De destreza não se fazem valores, se faz ficção pulsante talvez, não valores. Pálpebras que piscam de tédio frente a só mais um homem que quer algo com veemência, enquanto a pelagem lustrosa do bicho encarcerado faz a saliva grossa brotar em satisfação. Quem ainda quer saber de um homem que se mantém vivo em penúria? O que sustentaria a atenção em decrepitudes tão humanas? Pouco, quase nada mesmo.

A quem não o sente, não é possível fazê-lo compreender.

Satisfações fazem público, e saber de alguém que deliberadamente se torna a própria sanha de viver é, no mínimo, desinteressante. Não preciso de fome, tenho meus sapatos apertados o bastante para me lembrar que também sou gente, daí ver os bizarros me afrouxa o cinto pelo menos um instante – diríamos austeros frente à decadência. Mas ele dura, algo ainda se insatisfaz no jogo do contato, e acaba adocicando demais nos lábios dos consumidores.

– porque não pude encontrar comida que me agradasse.

Porque parar agora? Pouca paciência. Cruel. Uma respiração, ritmos impostos. Precisamos aplacar o coração para sobreviver nos segundos áridos. Mas ainda assim algo que desfaz, que refaz em outra pele nova. Desaparecer por vontade nos racha. Com ele desaparecemos um pouco, destroçados nessa vida faminta. Ávidos enfim.

 Texto publicado na Revista ARTE – SESC, nº 16, segundo semestre de 2014.


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