
A calçada, sempre aprazível, se mostrou esquiva e torta, iluminada por um sol cinzento e de viés.
Os sapatos um pouco descompassados dão a impressão de uma firmeza cabível. Tornozelos arredondados acompanham as fivelas, mostrando o caminho para pernas bem feitas e fortemente envolvidas pelo pano grosso da saia, apertada na cintura e na ponta, dando este leve desengonçar aos joelhos. As nádegas firmes ainda e salientes pela força da fazenda sendo divididas pelo fecho-ecler, marcam definitivamente o fim das pernas, e uma leve lordose dá o toque final e característico dum contorno sinuoso que o corpo feminino molda. Na blusa, que semelhante à saia é simples e na cor azul-marinho, dois bolsos aprumados, um de cada lado do umbigo sumido, se colam rente demais ao corpo perdendo completamente sua função de conter alguma quinquilharia menor que uma carteira de identidade. Juntos, os quadradinhos de pano apontam para um belo par de seios levados a se abraçar na base do colo, formando duas leves curvas e um apertado vale no meio, limitados pelo risco firme do decote redondo. As alças finas se põem retas com o leve movimento ritmado de se apertarem e se soltarem do corpo deixando surgir fugazmente alças elásticas dos sutiãs também escuros, acompanhando os ombros ornamentados de saboneteiras rasas, mas bem marcadas. Braços dependurados, mas sem quase nenhum balanço, chegam até as coxas, e, esguios, possuem mãos e uma bolsa pequena numa delas com a alça pendendo até o meio da canela. A nuca escondida por cabelos castanhos é deflagrada de relance quando o rosto rapidamente se volta e uma boca entreaberta aponta para longe com um par de grandes olhos que enxergam ainda mais longe.
É o par de sapatos que dita o estado dela, seu ritmo, a seqüência da música imaginada para esses passos, e dessa vez trazem um ruído diferente nesse tocar do chão, talvez soando um pouco mais seco, sem barulho demais. Um pequenino erro, mal estar, um leve desalinho, que responde a pergunta que traz grudada ao pé direito repetidamente pisada sobre a real necessidade dessa caminhada. Como que vindos de lugares mais tortuosos, os passos se perseguem um a um e evitam levemente o cimento. A rua estranha o trote desses sapatos sempre tão leves e comedidos; sapatos que haviam decorado praticamente todos os caminhos possíveis que os desenhos da velha calçada poderiam levar. Afobada, ressoava a marcha incomum desses pés.
Respira pouco, tentando concentrar-se em seus pensamentos e ignora quase completamente o que lhe rodeia. Vendedores de olhos franzidos, homens mal humorados, crianças e carros que correm; tudo que compunha o redor. Mirava o olhar sempre mais fundo para fugir das coisas focalizáveis que a fixariam em suas figuras. Árvores folhosas, bueiros secos e risos altos da porta do mercado; piscava os olhos mais rápido fugindo das imagens comuns, tudo ofuscado pela luz clara demais do sol da tarde. O claro e o escuro da rua cheia encurralavam-na, feito gaiola.
Fazia o leve exercício de pensamento que elaborou uma vez, percebendo o despontar da leve ansiedade que novamente lhe formigava no peito. Ela pesava devagar todos seus movimentos, segurando a vontade da respiração, pensando em coisas que talvez lhe emocionassem. Direcionava a ânsia para pontos específicos como sua bolsa entre os dedos ou os lábios tencionados, e a cada vez que ficava sob o escuro de suas pálpebras via a bolsa e os lábios, só. Se houvesse música e estivesse a dançar com um par, estaria tentando focalizar a brasa de algum cigarro distante pensando nos desenrolar dos segundos. Fazia o leve movimento de esquecer-se; de pasmar; de tremer pouco, como quase chorar. O formigamento cresceu súbito como se fosse água no pulmão e ela sentiu o frio habitual do medo, que crescia desfazendo seu ensaiado exercício de engolir devagar e a seco. Não seria o medo propriamente dito, pensava ela, trazendo todos os medos que suas primas tinham de insetos e do demônio. Sabia que medo era palavra errada, que as pessoas juntam para falar de tudo que não suportam de começo. Trazia há muito dentro de si uma espécie de pavor gélido e sem rosto.
Parou por um instante o fluir dos pensamentos leves e os passos rápidos, segurando firme a cintura com as mãos espalmadas próximas à virilha, baixando a cabeça devagar para o chão. A calçada brilhava de vertigem quando abriu os olhos novamente e, olhando para o lado, o breu brilhante se abriu rápido num corredor luminoso. Viu que entre dois prédios havia um estreito beco com um banco desses de cimento armado enegrecido de chuva onde cabem umas três pessoas magras. Caminhou devagar pelo silêncio do beco e se sentou bem no centro do banco. Passando o dedo indicador nas duas sobrancelhas, retirou uma única gota de suor de cada uma. Conhecia seu medo, regulador de todo o mundo, que resolvia arrebatá-la como resultado dos movimentos alheios. Ela era só um efeito colateral e se resignava, pois o mundo daria conta dos movimentos, era esperar e identificar, sem maior mistério. Sentia dentro de si cada perdição que acontecia a sua volta, o susto a tomava no lugar dos outros, era sua barriga que revolvia, sua cabeça que enchia, seus olhos que marejavam, mas isso sempre passava. Para-raio, depois da descarga, repousa firme. Acreditava em seu ritmo, sabia que seria somente mais um momento de retidão, e que as coisas se acalmariam daí a alguns dias e acabaria finalmente por encontrar uma razão ou razões que fizeram sua intuição alertá-la novamente.
As costas nuas encostadas na parede gelada e ela pendendo a cabeça um pouco para trás, suspirando entrecortadamente. Fecha os olhos, tendo uma faixa de céu azul descansando todo seu rosto sereno neste momento.
Não havia com o que se preocupar, seria somente mais um pavor, de resto estava bem e não necessitava de alarmes maiores. Já havia devolvido mesmo a chave do apartamento para a recepcionista e há algumas horas não pensava em ninguém a não ser nela mesma. Esticando as pernas sentiu estalar o tornozelo com uma leve dor. O reflexo a fez repuxar as mãos da prostração sobre o banco e apoiá-las sobre as coxas, e as sentiu doloridas e quentes. A blusa apertava em demasiado todo o colo agora, e pensou na estupidez de escolher roupas tão apertadas. Logo em seguida lembrou-se que esta era realmente a intenção da escolha, este conjunto apertado que não usava há anos. Achou-se um pouco estúpida, poucas vezes pensara sobre o que vestiria para encontrar um homem, e este homem não se tratava de ninguém muito especial, mas fora ela mesma que decidira pelas peças mais provocantes. Abriu um pouco as pernas como homem sentindo alívio, ignorando completamente a janela aberta a sua frente.
Não se tratava de uma primeira vez, não era nada especial. Sentiu por uma semana esta crescente angústia e o convite de seu cunhado lhe pareceu um caminho para descobrir o que incomodava o mundo nesse momento. Um homem, um quarto de hotel, um banheiro rosa claro, lençóis brancos e ela mesma de combinação, todo esse cenário lhe pareceu ser uma forma final de não pensar. Não sentir por fim que o peso do mundo estaria sobre seus ombros. Baixar a cabeça em exaustão porque ela não consegue possuir o mundo, somente seus desgostos.
Mas sair sozinha daquele mesmo hotel há minutos atrás não lhe dera qualquer calma até agora. O que acontecia? Não queria se sentir assim de forma alguma, jamais escolhera esse medo, mas sentia todo seu corpo em complô, um corpo que pedia mais espaço, mais força, mais vida. Ela presa sempre entre seu constante medo sobre todas as conseqüências exigidas pelo mundo e seu espírito sem suportar ser relógio que só marca hora sem sentir os minutos lhe invadindo.
Engolindo saliva pouca, embroma mais um pouco e cambaleia para se levantar do banco que não sabia assim tão baixo. Piscando para a rua que deixara a pouco percebeu a agitação em sua cabeça voltar bruscamente sem alarde, e vendo flores cor-de-rosa e algum lixo franziu a testa: O que estava na berlinda agora? Será que desta vez seu pavor apontava para ela mesma? Seria esta sua vez?! Deu ligeiros passos e saindo do beco parou com os pés juntos no meio da calçada. Umedeceu os lábios com a língua fina. Varreu a rua em suas duas extremidades virando somente o pescoço e fechando quase que completamente os olhos ao encontrarem um sol âmbar que se punha na extremidade esquerda. Não fora diferente desta vez! Não havia explicação, mas também não havia como negar o pavor! Sentia o silêncio. Não de sons externos, mas dentro de si. O som de seu medo. A estática estava dentro dela e crescia pela imobilidade, fortalecendo uma espécie de urro mudo.
Tomando o rumo de casa a pé mesmo, batia com os saltos nas lajes soltas da calçada sem se importar que deixara a bolsa sobre o banco. Coisas menores, aquela bolsa velha só tinha trocados e fósforos soltos. Marchou sem pressa com os sapatos pesando seu 58 quilos de uma só vez.
Viu a porta de casa brilhante pelo alaranjado do poente e, resplandecendo, hesitou um instante diante de casa. Era dentro de si que congelava, era ali a fonte da mudança, da mínima transmutação que reafirmasse seu hábito de funcionar como termômetro das coisas, devia ela ser alvo de seu oráculo interno, o receptáculo do mundo, era seu próprio nome que sussurrava em meio ao transe do medo da mudança; era uma calmaria estranha, pois era para ela.
Com os dedos firmes abriu a porta e encontrou a sala vazia. Viu seu marido adentrar a sala pela porta que vem da cozinha. Um homem magro, de olhos fixos e perguntando onde ela esteve, pois chegara há vinte minutos e não a encontrara. E disse isso sem parar de andar rápido, segurando suas pequenas comidas e um copo duplo de água. Respondendo que tinha ido à costureira, passou direto para cozinha dizendo ir preparar um café. O frio trincava não só seu peito agora como também sua cabeça e as mãos secas, deixando as axilas, a vagina, os olhos e a língua ardendo como se concentrassem todo o calor do resto do corpo. Pegou uma grande faca e voltou devagar para junto do marido que se mostrava de costas sentado na poltrona de dois lugares, com os pés sobre o lugar vago e com o alo colorido e bruxuleante da luz da televisão o envolvendo como um todo. Fitou o próprio rosto por poucos instantes sobre o metal do talher, que com tanto afinco polira no dia anterior, e, não se reconhecendo, chamou seu próprio nome baixinho com um sorriso de canto de boca.
Pôs-se ante ao tapete quadrado e, agachando, esgueirou-se para perto dos pés do marido, que mastigava com os olhos grudados na tela piscante: Estive com Frederico durante toda à tarde, mas isso não me fez a menor diferença! Viu seu marido virar-lhe o rosto tão estupefato que teve coragem de cuspir-lhe na cara, mas resignou. Golpeou-o na barriga por dezesseis vezes com rapidez e sem muita expressão.
O corpo de seu marido, que por ser tão magro já jorrara quase todo o sangue, jazia de bruços e imóvel por sobre o pequeno tapete bege. Sentiu que o frio passava e que as mudanças não demorariam muito a chegar. Limpou as mãos na roupa mesmo, pois escuro não aparece muito, ninguém notaria. E pegando sua bolsa de palha maior resolveu sair para comprar jabuticabas e tingir os cabelos, talvez vermelho ou negro; negro sim.
Saindo para a rua o sol era somente um risco avermelhado e crispava no horizonte. Calma mais uma vez, olhou para a casa oposta pouco antes de dar um passo à frente e seguir seu caminho rua abaixo, sumindo do campo de visão da vizinha que pensava nesse momento: Por que essa moça sempre fica parada na frente de casa quando entra ou sai?
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