Pulse

Sentiu o coração bater muito forte. Como se fosse sair pela boca. O peito parecia vazio. Cada batida parecia lerda na duração, forte no golpe, quieta no descanso cadavérico. Batia primeiro o peito, e a onda ressoava do pescoço pra cabeça, beliscando acima das duas orelhas ao mesmo tempo, batendo no osso duro com uma ponta de dor fraca, bem fraca.

A pulsação parecia engoli-lo. Sentia como se seu coração estivesse fazendo força pra degluti-lo primeiro pelo pescoço e a cabeça, puxando todo resto pelo avesso.

Os olhos empretejavam rápido bem no meio da vista na hora da pressão. Um lampejo escuro, um flash negro, não chegando a fechar a visão, dando só um ponto cego instantâneo, tendo em volta a paisagem qualquer que podia ser a rua cheia de gente ou a sala inerte. Nem conseguia enxergar mesmo, não de cegueira, mas por se concentrar na aparição da bola preta; sem ver mais nada, hipnotizado.

Pior que isso não aparecia como se ele estivesse cansado ou esgotado. Era invadido pela violenta taquicardia quando relaxava, quando parava um instante pra ouvir a própria respiração sem barulho. Aí ouvia o surdo dos tímpanos a bater o próprio sangue. E se respirasse devagar, tentando acalmar o coração de maratona que encontrava dentro de si, sentia um afogamento tremendo, como se o músculo se esgoelasse gritando pela respiração, clamando em desespero por mais um suspiro mais agitado que o salvasse.

Ritmar o ar entrando e saindo piorava tudo. A agonia ampliava de uma forma que parecia estremecer quaisquer paredes e a vertigem o atacava bem no meio da cabeça. Fechava devagar as pálpebras, arreganhava as narinas e, de boca aberta, tentava expirar o máximo possível. Tornava-se suas artérias do pescoço, virava um só pulso forte e cada vez mais lerdo e firme. As órbitas dos olhos saltavam e os beiços inchavam como se fossem explodir. Acalmar dava nisso, os ossos das costelas pareciam cada vez mais fixos e a ponto de implodirem todo o peito aflito.

Conhecia isso. Não sabia utilidade ou mesmo origem, mas, por tantos ataques como este, já estava, digamos, ambientado em ficar como que a afogar de calmaria.

Coração que bate é pra bater sem pensar. Por isso gostava tanto de música alta, de bebida e cigarros, de sexo. Pensando bem que as batidas da calmaria sempre soerguiam após qualquer uma dessas situações que tanto o entorpeciam.

Ofega de propósito, fingindo correria, qualquer agitação que convença o torpor que realmente não está em paz. Põe a língua pra fora, abre os braços um pouco, estica as pernas, retesando todos os músculos do corpo numa onda de rigidez e tremor forjada. Um calor morno o envolve por um segundo enveludando sua pele por segundos e deixando a retumbância um pouco mais opaca.

Falar com alguém, ir pra rua, comprar ovos ou mesmo cigarros é o que lhe aparece agora. Seguir, algo, mexer os pés, não pensar se os olhos estão vendo e sim ver, gastar a pele ao invés de senti-la pulsar, envenenar os pulmões com vapores de cheiro forte que contabilizar suspiros em sua cadeira. A porta, o frenesi que se anuncia não baixa-guarda nem diminui o peso da mão. Mexe, vai, estoura, fala, age. As axilas suam um pouco escorrendo um fio até a barriga. Fala, não para, olha, anda, vai, vomita, mastiga, mordisca, machuca, mata, suga, suceda, sulque, risque, torne, tombe. Sente os ossos tilintando, a água do estômago ficando grossa. Não para, diz, grita, irradia, rasgue, inflame, estupore, degladie, arranque, corta. E a pressão do tamanho de seu próprio punho fechado dentro do lado esquerdo de seu peito parece aumentar de velocidade, o círculo de seu sangue vazando veloz pro mesmo lugar sempre. Goza, rema, ama.

- Baby?

Tudo escorre rápido como ralo largo destampado de água límpida sob o sol do meio-dia.

- Oi?!

- Vai comer? Almoçar?

- Vamos.

Como é bom uma caminhada para aumentar a quantidade de coisas que nos rodeiam. A gente morre de calmaria. Tormenta mata, mas a gente nem percebe, é movimento e pronto.

Desligar a paz que sofre de paranóia. Debandar nos despedaços do caminho, ampliando o perigo… não por que ele quer, mas pra sobreviver. Talvez ele não perceba, reage e tá bom, enought.


Levante (for an instance)

Quem tem os movimentos idiotizados afinal? Você que firma o braço e lambe os lábios quando a descarga energética da sua cabeça se eleva, ou eu quando abaixo a guarda pro mundo e fico aqui batendo cabeça e me contorcendo? Algum sabe o que fazer?

Não tenho certeza, mesmo. O espasmo, é isso e só. Não faz a menor diferença afinal. A sua explosão é ritmada, quase que marcada na agenda de suas células, só você fica sem saber, mas seu corpo sabe. A minha é burrice, dessa que quando a gente percebe o que está fazendo, se vê assim, o bobo no meio da praça.

Qual a mais perigosa

garota? Se ver por instantes, e muitos anos destilados, refém dum mistério interior que te espreita sem dar sinal da não dormência em que ele está atualmente a tramar contra a sua ida ao bar. Ou a minha convulsão esfarelada por sobre os dias vazios, os telefonemas sem sentido algum que o desencontro, as letras sem sentido, as dormidas às altas horas e sonhos por vezes mais reais que a porra do dia?

Ninguém responde, a gente é assim, fica sendo o que consegue, inventando possibilidade onde as coisas endurecem, se acuando quando as coisas afrouxam, fazendo das tripas corrimão pra descer ou subir pra outro lugar, bebendo por subsistência ou desleixo.

Menina, moça, baby, parece que afinal a carruagem quer passar não só pela nossa boca, mas sim nos virar do avesso, nos transformar em poeira de roda de carroça desembestada em qualquer rua de paralelepípedo dessa cidade cheia de becos e repetições.

Por onde andará o contento? Aquele moço, aquela hora em que a gente dá risada, a inteligência dentro da cabeça da criança viva, o grito dentro da garganta do passarinho, o nó do arremate que finda os dias esgarçados que nos rodeiam?

Um bocejo, por que a minha ira é devastadora, implosiva, e sinto a ela como a seus acessos. Sua boca e sua pele, seu cheiro, e minha consistência se faz um pouco mais firme por um instante, pra quê tudo isso, por onde andará famigerado contentamento?

Tenho a ligeira impressão de que temos dias plenos de perdição a nos seguir, não que eles nos alcancem na esquina, não somos disso. Mas ficam farfaleando por sobre nossa visão malandra de tanta rua, por sobre nossas espertezas corpóreas de palavras fúteis, por nossa pele manchada de cor e tempo, por sobre nossas cabeças abençoadas pelas mães assim tão distantes.

Olha, quero pedir uma coisa, faz assim, vamos dar corda ao relógio e jogar fora, façamos o que precisa e que se desperdice o necessário, sempre.

Precisamos ser todos, andar pelos arbustos pétreos e cheios de gente escorada que se faz dentro de uma instituição tão idiota como a nossa rotina feia. Fazer do chá de toda hora um elixir que nos transmute em qualquer raspa, qualquer resto de 80 como somos afinal.

Bom, beba comigo, mas se for demais, deixa que eu bebo o final já requentado, não ligo.

Um beijo, um cigarro, uma coisa assim sem nome e a vida explode, deixando nossos pedaços por todo o Mundo, que lástima, temos de catar tudo de novo pra dinamitar mais uma vez cheios de alegria!

Not that optimist, but it´s ok, fuck off with the sense… just tired and in urge off doing something cruel… maybe living for an instance…

dedicatória à querida Talita: http://amorteumaborboleta.blogspot.com.br/


Fogo na Roupa

A calçada, sempre aprazível, se mostrou esquiva e torta, iluminada por um sol cinzento e de viés.

Os sapatos um pouco descompassados dão a impressão de uma firmeza cabível. Tornozelos arredondados acompanham as fivelas, mostrando o caminho para pernas bem feitas e fortemente envolvidas pelo pano grosso da saia, apertada na cintura e na ponta, dando este leve desengonçar aos joelhos. As nádegas firmes ainda e salientes pela força da fazenda sendo divididas pelo fecho-ecler, marcam definitivamente o fim das pernas, e uma leve lordose dá o toque final e característico dum contorno sinuoso que o corpo feminino molda. Na blusa, que semelhante à saia é simples e na cor azul-marinho, dois bolsos aprumados, um de cada lado do umbigo sumido, se colam rente demais ao corpo perdendo completamente sua função de conter alguma quinquilharia menor que uma carteira de identidade. Juntos, os quadradinhos de pano apontam para um belo par de seios levados a se abraçar na base do colo, formando duas leves curvas e um apertado vale no meio, limitados pelo risco firme do decote redondo. As alças finas se põem retas com o leve movimento ritmado de se apertarem e se soltarem do corpo deixando surgir fugazmente alças elásticas dos sutiãs também escuros, acompanhando os ombros ornamentados de saboneteiras rasas, mas bem marcadas. Braços dependurados, mas sem quase nenhum balanço, chegam até as coxas, e, esguios, possuem mãos e uma bolsa pequena numa delas com a alça pendendo até o meio da canela. A nuca escondida por cabelos castanhos é deflagrada de relance quando o rosto rapidamente se volta e uma boca entreaberta aponta para longe com um par de grandes olhos que enxergam ainda mais longe.

É o par de sapatos que dita o estado dela, seu ritmo, a seqüência da música imaginada para esses passos, e dessa vez trazem um ruído diferente nesse tocar do chão, talvez soando um pouco mais seco, sem barulho demais. Um pequenino erro, mal estar, um leve desalinho, que responde a pergunta que traz grudada ao pé direito repetidamente pisada sobre a real necessidade dessa caminhada. Como que vindos de lugares mais tortuosos, os passos se perseguem um a um e evitam levemente o cimento. A rua estranha o trote desses sapatos sempre tão leves e comedidos; sapatos que haviam decorado praticamente todos os caminhos possíveis que os desenhos da velha calçada poderiam levar. Afobada, ressoava a marcha incomum desses pés.

Respira pouco, tentando concentrar-se em seus pensamentos e ignora quase completamente o que lhe rodeia. Vendedores de olhos franzidos, homens mal humorados, crianças e carros que correm; tudo que compunha o redor. Mirava o olhar sempre mais fundo para fugir das coisas focalizáveis que a fixariam em suas figuras. Árvores folhosas, bueiros secos e risos altos da porta do mercado; piscava os olhos mais rápido fugindo das imagens comuns, tudo ofuscado pela luz clara demais do sol da tarde. O claro e o escuro da rua cheia encurralavam-na, feito gaiola.

Fazia o leve exercício de pensamento que elaborou uma vez, percebendo o despontar da leve ansiedade que novamente lhe formigava no peito. Ela pesava devagar todos seus movimentos, segurando a vontade da respiração, pensando em coisas que talvez lhe emocionassem. Direcionava a ânsia para pontos específicos como sua bolsa entre os dedos ou os lábios tencionados, e a cada vez que ficava sob o escuro de suas pálpebras via a bolsa e os lábios, só. Se houvesse música e estivesse a dançar com um par, estaria tentando focalizar a brasa de algum cigarro distante pensando nos desenrolar dos segundos. Fazia o leve movimento de esquecer-se; de pasmar; de tremer pouco, como quase chorar. O formigamento cresceu súbito como se fosse água no pulmão e ela sentiu o frio habitual do medo, que crescia desfazendo seu ensaiado exercício de engolir devagar e a seco. Não seria o medo propriamente dito, pensava ela, trazendo todos os medos que suas primas tinham de insetos e do demônio. Sabia que medo era palavra errada, que as pessoas juntam para falar de tudo que não suportam de começo. Trazia há muito dentro de si uma espécie de pavor gélido e sem rosto.

Parou por um instante o fluir dos pensamentos leves e os passos rápidos, segurando firme a cintura com as mãos espalmadas próximas à virilha, baixando a cabeça devagar para o chão. A calçada brilhava de vertigem quando abriu os olhos novamente e, olhando para o lado, o breu brilhante se abriu rápido num corredor luminoso. Viu que entre dois prédios havia um estreito beco com um banco desses de cimento armado enegrecido de chuva onde cabem umas três pessoas magras. Caminhou devagar pelo silêncio do beco e se sentou bem no centro do banco. Passando o dedo indicador nas duas sobrancelhas, retirou uma única gota de suor de cada uma. Conhecia seu medo, regulador de todo o mundo, que resolvia arrebatá-la como resultado dos movimentos alheios. Ela era só um efeito colateral e se resignava, pois o mundo daria conta dos movimentos, era esperar e identificar, sem maior mistério. Sentia dentro de si cada perdição que acontecia a sua volta, o susto a tomava no lugar dos outros, era sua barriga que revolvia, sua cabeça que enchia, seus olhos que marejavam, mas isso sempre passava. Para-raio, depois da descarga, repousa firme. Acreditava em seu ritmo, sabia que seria somente mais um momento de retidão, e que as coisas se acalmariam daí a alguns dias e acabaria finalmente por encontrar uma razão ou razões que fizeram sua intuição alertá-la novamente.

As costas nuas encostadas na parede gelada e ela pendendo a cabeça um pouco para trás, suspirando entrecortadamente. Fecha os olhos, tendo uma faixa de céu azul descansando todo seu rosto sereno neste momento.

Não havia com o que se preocupar, seria somente mais um pavor, de resto estava bem e não necessitava de alarmes maiores. Já havia devolvido mesmo a chave do apartamento para a recepcionista e há algumas horas não pensava em ninguém a não ser nela mesma. Esticando as pernas sentiu estalar o tornozelo com uma leve dor. O reflexo a fez repuxar as mãos da prostração sobre o banco e apoiá-las sobre as coxas, e as sentiu doloridas e quentes. A blusa apertava em demasiado todo o colo agora, e pensou na estupidez de escolher roupas tão apertadas. Logo em seguida lembrou-se que esta era realmente a intenção da escolha, este conjunto apertado que não usava há anos. Achou-se um pouco estúpida, poucas vezes pensara sobre o que vestiria para encontrar um homem, e este homem não se tratava de ninguém muito especial, mas fora ela mesma que decidira pelas peças mais provocantes. Abriu um pouco as pernas como homem sentindo alívio, ignorando completamente a janela aberta a sua frente.

Não se tratava de uma primeira vez, não era nada especial. Sentiu por uma semana esta crescente angústia e o convite de seu cunhado lhe pareceu um caminho para descobrir o que incomodava o mundo nesse momento. Um homem, um quarto de hotel, um banheiro rosa claro, lençóis brancos e ela mesma de combinação, todo esse cenário lhe pareceu ser uma forma final de não pensar. Não sentir por fim que o peso do mundo estaria sobre seus ombros. Baixar a cabeça em exaustão porque ela não consegue possuir o mundo, somente seus desgostos.

Mas sair sozinha daquele mesmo hotel há minutos atrás não lhe dera qualquer calma até agora. O que acontecia? Não queria se sentir assim de forma alguma, jamais escolhera esse medo, mas sentia todo seu corpo em complô, um corpo que pedia mais espaço, mais força, mais vida. Ela presa sempre entre seu constante medo sobre todas as conseqüências exigidas pelo mundo e seu espírito sem suportar ser relógio que só marca hora sem sentir os minutos lhe invadindo.

Engolindo saliva pouca, embroma mais um pouco e cambaleia para se levantar do banco que não sabia assim tão baixo. Piscando para a rua que deixara a pouco percebeu a agitação em sua cabeça voltar bruscamente sem alarde, e vendo flores cor-de-rosa e algum lixo franziu a testa: O que estava na berlinda agora? Será que desta vez seu pavor apontava para ela mesma? Seria esta sua vez?! Deu ligeiros passos e saindo do beco parou com os pés juntos no meio da calçada. Umedeceu os lábios com a língua fina. Varreu a rua em suas duas extremidades virando somente o pescoço e fechando quase que completamente os olhos ao encontrarem um sol âmbar que se punha na extremidade esquerda. Não fora diferente desta vez! Não havia explicação, mas também não havia como negar o pavor! Sentia o silêncio. Não de sons externos, mas dentro de si.  O som de seu medo. A estática estava dentro dela e crescia pela imobilidade, fortalecendo uma espécie de urro mudo.

Tomando o rumo de casa a pé mesmo, batia com os saltos nas lajes soltas da calçada sem se importar que deixara a bolsa sobre o banco. Coisas menores, aquela bolsa velha só tinha trocados e fósforos soltos. Marchou sem pressa com os sapatos pesando seu 58 quilos de uma só vez.

Viu a porta de casa brilhante pelo alaranjado do poente e, resplandecendo, hesitou um instante diante de casa. Era dentro de si que congelava, era ali a fonte da mudança, da mínima transmutação que reafirmasse seu hábito de funcionar como termômetro das coisas, devia ela ser alvo de seu oráculo interno, o receptáculo do mundo, era seu próprio nome que sussurrava em meio ao transe do medo da mudança; era uma calmaria estranha, pois era para ela.

Com os dedos firmes abriu a porta e encontrou a sala vazia. Viu seu marido adentrar a sala pela porta que vem da cozinha. Um homem magro, de olhos fixos e perguntando onde ela esteve, pois chegara há vinte minutos e não a encontrara. E disse isso sem parar de andar rápido, segurando suas pequenas comidas e um copo duplo de água. Respondendo que tinha ido à costureira, passou direto para cozinha dizendo ir preparar um café. O frio trincava não só seu peito agora como também sua cabeça e as mãos secas, deixando as axilas, a vagina, os olhos e a língua ardendo como se concentrassem todo o calor do resto do corpo. Pegou uma grande faca e voltou devagar para junto do marido que se mostrava de costas sentado na poltrona de dois lugares, com os pés sobre o lugar vago e com o alo colorido e bruxuleante da luz da televisão o envolvendo como um todo. Fitou o próprio rosto por poucos instantes sobre o metal do talher, que com tanto afinco polira no dia anterior, e, não se reconhecendo, chamou seu próprio nome baixinho com um sorriso de canto de boca.

Pôs-se ante ao tapete quadrado e, agachando, esgueirou-se para perto dos pés do marido, que mastigava com os olhos grudados na tela piscante: Estive com Frederico durante toda à tarde, mas isso não me fez a menor diferença! Viu seu marido virar-lhe o rosto tão estupefato que teve coragem de cuspir-lhe na cara, mas resignou. Golpeou-o na barriga por dezesseis vezes com rapidez e sem muita expressão.

O corpo de seu marido, que por ser tão magro já jorrara quase todo o sangue, jazia de bruços e imóvel por sobre o pequeno tapete bege. Sentiu que o frio passava e que as mudanças não demorariam muito a chegar. Limpou as mãos na roupa mesmo, pois escuro não aparece muito, ninguém notaria. E pegando sua bolsa de palha maior resolveu sair para comprar jabuticabas e tingir os cabelos, talvez vermelho ou negro; negro sim.

Saindo para a rua o sol era somente um risco avermelhado e crispava no horizonte. Calma mais uma vez, olhou para a casa oposta pouco antes de dar um passo à frente e seguir seu caminho rua abaixo, sumindo do campo de visão da vizinha que pensava nesse momento: Por que essa moça sempre fica parada na frente de casa quando entra ou sai?


The empty hug

How can someone imagine that it would fit so well? Such a kind heart that we found out that is beating the same rhythm of our own? A great warmness that just leave a huge cold breath around us after the sunrise…

Little black spots that reminds the starry night sky, and a weight that just gives pleasure on the hanging. And the gentle snore of our breath, together.

And suddenly everything is misunderstanding, just because. Doesn´t matter how hard you try, we just keep the position, hold still, waiting for the next hug. Open arms waiting…

Ok, we just shouldn´t be like that, fast like and lost like that. But, after all, what do we have? Minutes to spend and roads to lead on. I just don´t try to measure this minutes like the rounding clock or even track my fields before I get there. And this is not an advice, it´s me trying to hear my voice at least one more time and be certain of what is going on. Even if it´s is just impossible…

Sorry baby if I´m pushing a little bit too much, but my head pumps and the blood boils and I just can´t say no, it flows and drowns me within.

 

Give me one more hug, and I´ll try not to feel the next emptiness…kiss you and we fit again.

 


Respiro

 

Não quero ser hábito, quero habitar.

Por que o que não se move ou fenece ou caduca.

 

Onde minha vida toca a sua?

Desde as ondas de meus cabelos a seriedade de seus dedos, fruímos. 

Encontrar combustível para continuar enchendo-se de ar.

Onde? Na película impensada, na frágil concretude, nessa necessidade sem propósito, na borda da pele que quer essa outra pele.

 

Quantos mundos, quilômetros enrolados em fios invisíveis.

O curso do rio, a mata ciliar que murcha sem a correnteza próxima.

Quantos suspiros, quantos apitos, cantos e lábios selados, quanta perdição…

Existimos aí sem escapatória.

 

Nós– o afago e nada mais.

 

 


A transformação das 17:31

A fumaça ganha consistência. Um lado do rosto amorna e as sombras pretas se duplicam no horizonte. O amarelo e o azul leitosos que enovelam a borda das coisas. A profundidade replicada em milhares de passos e silhuetas obscuras engolindo para o centro de cada ponto a cor característica deste mesmo ponto. O vermelho que escurece bem no meio da lanterna traseira dos carros estacionados, o verde já quase negro nas ervas baixas do canteiro, o branco do papel que fica cinza nas bordas e reluzente no centro, o corpo das pessoas que passam em saturações extremadas, …

Como se os minutos do pôr-do-sol fragilizassem tudo, dando-lhes força e imponência. A cor de nossa pele encarmina, o chão mais úmido por fim mais fosco, as folhas individualizadas e de bordas marcadas das altas árvores, a água que ganha superfície a ser quebrada. Um risco veloz alaranjado a enviesar a retidão do solo fazendo do equilíbrio um delírio bêbado. Suspiro de nitidez sôfrega na descendência do sol. E ameniza, desencanta, endoura enquanto o tempo passa, eu respiro, e as nuvens pegam fogo bem longe daqui. Fachos de palha flutuam no céu e o cheiro fugidio da terra se desprende devagar. As vertigens acobreadas que um fundo anil sujo quase roxo que despencam intactos sobre mim. A imensidão do ar habitada pro cores inimagináveis numa muda transmutação. Brasa, meus olhos, os segundos e onde está? Sopro fraco de brisa de minha cara atônita; há de se fazer algo inútil, sempre.

Do branco incandescente ao rosáceo cinza. O âmbar desses momentos estuprando de realidade o mundo todo na cadeia de 30 minutos de um dia.           O sol não faz barulho porque não necessita.


Haunting refrain

A tarefa de amolecer diariamente o tijolo, a tarefa de abrir caminho na massa pegajosa que se proclama mundo, esbarrar cada manhã com o paralelepípedo de nome repugnante, com a satisfação canina de que tudo esteja em seu lugar, a mesma mulher ao lado, os mesmos sapatos e o mesmo sabor da mesma pasta de dentes, a mesma tristeza das casas em frente, do sujo tabuleiro de janelas de tempo com o letreiro HOTEL DE BELGIQUE.

Enfiar a cabeça como um touro apático contra a massa transparente em cujo centro bebemos café com leite e abrimos o jornal para saber o que aconteceu em qualquer dos cantos do tijolo de cristal. Resistir a que o ato delicado de gorar a maçaneta, esse ato pelo qual tudo poderia se transformas, possa cumprir-se com a fria eficácia de um reflexo cotidiano. Até logo, querida. Passe bem.

Apertar uma colherinha entre os dedos e sentir seu latejar metálico, sua advertência suspeita. Como custa negar uma colherinha, negar uma porta, negar tudo o que o hábito lambe até dar-lhe uma suavidade satisfatória. Quanto mais simples é aceitar a fácil solicitação da colher, usa-la para mexer o café.

E não é mau que as coisas nos encontrem outra vez todo dia e sejam as mesmas. Que a nosso lado esteja a mesma mulher, o mesmo relógio e que o romance aberto em cima da mesa comece a andar outra vez na bicicleta de nossos óculos, por que haveria de ser mau? Mas como um touro triste é preciso baixar a cabeça, do centro do tijolo de cristal empurrar para fora, em direção ao outro tão perto de nós, inacessível como o toureiro do touro. Castigar os olhos fitando isso que anda no céu e aceita astuciosamente seu nome de nuvem, sua resposta catalogada na memória. Não pense que o telefone vai lhe dar os números que procura. Por que haveria de dá-los? Virá somente o que você tem preparado e resolvido, o triste reflexo de sua esperança, esse macaco que se coça em cima de uma mesa e treme de frio. Quebre a cabeça desse macaco, corra em direção à parede e abra caminho. Oh, como cantam no andar de cima! Há um andar em cima nesta casa, com outras pessoas. Há um andar em cima onde moram pessoas que não percebem seu andar de baixo, e estamos todo dentro do tijolo de cristal. E se, de repente, uma traça parar pertinho de um lápis e palpita como um fogo cinzento, olhe-a, eu a estou olhando, estou apalpando seu coração pequenino, e ouço-a: essa traça ressoa na pasta de cristal congelado, nem tudo está perdido. Quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua; não a norma já aceita, não as casas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta do tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina.

trecho de Histórias de Cronópios e de Famas, de Julio Cortázar.

Fragmento que não me deixa escapar, que enfrenta todo dia a minha cara, que recebi novamente como presente nesses dias, que gira e não some nunca da minha cabeça.

A gente nem sabe pra onde a vida aponta, mas atira.


You´ll feel

VIVER E DEIXAR DE VIVER É QUE SÃO SULOÇÕES IMAGINÁRIAS. A EXISTÊNCIA ESTÁ EM OUTRO LUGAR. (BRETON, 1924, Manifesto do Surrealismo)

Your little eyes doesn´t have bullets enough to cleave my whole body.

A rock is more tender than the blue that still radiates from your static orbits.

Just like that, your blindness and my love.


Por excesso

Tem hora que num dá pra pensar que o tempo está se refazendo sempre, constantemente se mantendo estático. Tem hora que é só essa arcada sedenta de nada que abocanha tinhosa a fatia de nosso fruto novo. Piedade não existe e revolta aqui tem que ser feita por distração.

Minhas mãos esfarelam, desaparecem em cada centímetro desse futuro idiota que me encarna minuto a minuto. Roubo –, essa crueldade do tempo de se fazer presente a todo instante, não me dando qualquer espaço intacto pra minha pele arranhada.

Tem hora que é isso mesmo, que fraquejar não tem como erguer força nova, que a perna falha e dói bastante, pára o caminho, não tem como. Vou chorar por cada cicatriz, reabrir ou mesmo me dar conta que o risco, seco já, ainda incha quando esfrego e coça fundo, lembrando que a ferida nunca fecha deveras. A tinta de minha vida escorre, esvai meu desenho inicial, forma outro ainda inimigo pra mim. Não que esteja afinal tecendo sobre as desmazelas de estar vivo, só peço um pouco de calma, de suspiro. Me sinto só, sei que é assim, mas não tem dor que perca dolorância por convencimento.

Aperta minha mão, sorri pra mim, um afago qualquer. Meu egoísmo é estranho a meu sangue. Envenena, daquele jeito que não mata, mas acomete, drena. E nessa aflição de bater de leve a pele pra saber-se acordado o que se faz da superfície é a fineza frágil do acuado. Preciso vomitar esse veneno, este o qual ninguém se importa que eu porte. Veneno meu.

Desertar, virar sertão, matar por ter de ser, vingar, correr légua ajuntando pra depois deitar sozinho. Legião pra enfrentar o mais difícil, a hora vazia sem sangue do meu caminho. Punçar então.


… a breath, please

And just like opium drops, you call and peace my heart a little more.

Not numbing, but kind like letting the pressure lose a bit, so my eyes can settle on the view and actually see something instead of my blind love enfolding thoughts.

Patience.  I don´t want it. I need to linger one moment more and be with you, soon.

One hour, some days, and the live goes on with my bounding heart passionate on the lack of yours.  I want you, now, but I´ll be OK.

Just one more drop, please. Shut me, and love me, baby.

And like a rubber string, one word, and I jump from time to time. Past and now, towards and everything, in a tight firm bubble.

And it bursts.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.